sábado, 10 de novembro de 2012

Sinceramente


Eu adorava voltar a escrever, muito e bem.

Eu adorava não encher este blog de textos pirosos e melodramáticos.

Eu adorava escrever algo diferente disso.

Eu adorava ser mimada, irritante, presunçosa e inconsequente.

Adorava ser irresponsável – mas isso não é de agora – na verdade eu sempre quis ser irresponsável, porque a minha responsabilidade irrita(va)-me per fundamente! No infantário achava que percebia sempre mais de tudo do que as outras crianças – e será que percebia? Tinha a mania que pensava como os adultos: fazia os pensamentos contrafactuais mais detalhados possíveis e construía mil e uma histórias em cima de uma hipótese.
Gostava de ficar a observar os adultos e investigar por conta própria, sentia que percebia sempre tudo, além do que me diziam, além do que deveria saber– mas não gostava, assustava-me.

Eu adorava ser irresponsável.

Eu adorava viver ao sabor do vento, obrigar os outros a preocuparem-se por mim e não ter a mania de resolver tudo sozinha. Adorava não ser orgulhosa, viver às custas de alguém e não me preocupar com as contas no final do mês.

Eu adorava voltar a fotografar… muito, fotografar muito e bem.

Eu adorava dar a atenção que os meus amigos merecem - acho que agora já são só amigas, poucas.

Eu adorava que os meus amigos – aqueles que dizem que eu mudei, substitui e não me preocupei – continuassem presentes. Talvez um dia, quando tiverem de ser adultos, percebam que não era falta de interesse e que a falta de tempo não era falta de disponibilidade (são coisas diferentes).

Eu adorava não chorar quando penso neles.

Eu adorava voltar a passar os fins-de-semana entediada por não ter de fazer nada, quando me irritava com a TV por não passar filmes do meu agrado.

Eu adorava ser irresponsável.

Eu adorava estudar – só estudar.

Eu adorava não ter pena de mim – mas tenho. As pessoas têm muito pudor em dizerem que têm pena – não percebo porquê! Lamento que assim seja, daí ter pena. E ter pena não é fazer-me de coitadinha. Não sou coitadinha: muito pelo contrário. E é por não ser coitadinha que tenho pena de mim.

Eu adorava ser irresponsável.

Eu adorava fugir de Lisboa – porque no fundo ainda tenho esperança que outra cidade me proporcione uma rotina diferente.

Eu adorava voltar a ser criança e sonhar com Coimbra cor-de-rosa e fácil. Onde um apartamento e as propinas apareciam pagas por uma varinha mágica e o frigorífico estava sempre cheio.

Eu adorava não pensar tanto.

Eu adorava ser irresponsável…

1 comentário:

  1. Mas quando se é responsável, competente e egoístas para com a nossa própria vida essa irresponsabilidade nunca chega porque no fundo no fundo queremos ser nós próprias a dar a volta por cima para no fim dizer: Fui eu que fiz isto! As vezes era bom que outro alguém se preocupasse tanto como nós mas no fundo reza o velho ditado " Se queres uma coisa bem feita fá-la tu!"

    Bjos

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